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quarta-feira, 25 de julho de 2012

"No centenário de Milton Friedman", João Carlos Espada (25.07.2012)

in Público


Como o desconhecimento sobre as ideias de Adam Smith ou de Milton Friedman dão muitas vezes origem a  mal-entendidos, julgo que este artigo do João Carlos Espada é digno de leitura. Seguem alguns excertos:


"Os dois autores [Smith e Friedman] são retratados como irredutíveis defensores do capitalismo, o qual é em seguida identificado com um individualismo egoísta, insensível à sorte dos mais desfavorecidos e destituído de qualquer preocupação com o bem comum.

A verdade, todavia, é quase o oposto. Milton Friedman, tal como Adam Smith, olham para o funcionamento da economia do ponto de vista dos muitos, do chamado homem comum, e não do ponto de vista dos poucos que possam deter vantagens herdadas ou obtidas por favores políticos. E o seu argumento central consiste em dizer que a troca livre em regime de concorrência é o sistema que mais favorece a elevação do nível de vida do maior número de pessoas.


Em contrapartida, Friedman argumentou, tal como Smith tinha argumentado, que a intervenção directa do Estado na economia gera em regra mais prejuízos do que benefícios. Cria rendas de situação para grupos particulares, artificialmente protegidos da concorrência; aumenta os custos de produção relativamente aos que existiriam em regime de concorrência; e, pelas razões anteriores, gera uma espiral despesista incontrolável pelo homem da rua - ainda que essa despesa seja paga por ele através dos impostos."


"Este paradoxo acentua-se no momento actual, quando a insustentabilidade da despesa e da dívida dos Estados é atribuída a alegadas políticas neoliberais, identificadas com Milton Friedman. E o paradoxo atinge o absurdo quando políticas de austeridade fundadas na subida dos impostos são também acusadas de neoliberais.

Como muito bem recordou Niall Ferguson no artigo de The Spectator, Milton Friedman ficaria incomodado com a confusão gerada actualmente pela dicotomia entre "austeridade e crescimento". Ele dificilmente poderia apoiar qualquer delas, enquanto nenhuma delas atacasse frontalmente o desperdício e despesismo produzidos por gigantescas organizações estatais artificialmente protegidas da concorrência. Também não poderia aceitar que a ausência ou debilidade dessas medidas procurasse compensação na subida da carga fiscal sobre os cidadãos e as famílias."

sábado, 2 de outubro de 2010

Sobre a grave crise do Estado Português (01.10.2010)

No Público de ontem há vários artigos que merecem uma leitura atenta. Deixo aqui alguns excertos que subscrevo inteiramente:


"(...)Ao longo dos últimos cinco anos Sócrates pôde aprovar como quis os seus orçamentos do Estado, primeiro com maioria absoluta, depois graças à abstenção de um PSD com a direcção (de Ferreira Leite) de saída. Ninguém lhe impôs condições, fez o que quis. Por isso é sua, é do seu ministro das Finanças e é do PS a responsabilidade por estarmos no estado em que estamos. Primeiro, pelo que não fizeram de reestruturação e redução da máquina do Estado, pois deixaram o PRACE a meio e regressaram mesmo ao alegre festim da multiplicação de institutos e empresas públicas. Depois, pela insistente recusa em enfrentarem as debilidades nacionais, pela estratégia errada de promoção do desenvolvimento económico com base no compadrio e nas redes de "amigos", pela criação de ilusões estatísticas e por uma estratégia política autoritária que começou sempre por hostilizar, de forma por vezes irracional, os grupos de interesse, e acabou por regra em recuos em toda a linha. Por fim por uma gestão criminosa do calendário eleitoral que se traduziu em medidas populistas que afundaram o país, desde o aumento de 2,9 por cento aos funcionários públicos à multiplicação de prestações sociais insustentáveis e impossíveis de fiscalizar, passando por programas de investimento sumptuários e pelo total laxismo no controlo orçamental.

De facto, como ontem notou o economista Álvaro Marvão Pereira, o conjunto de medidas anunciado quarta-feira "deve-se exclusiva e totalmente à inacreditável irresponsabilidade e à incompetência atroz deste primeiro-ministro e deste ministro das Finanças" que, por razões eleitorais, fizeram exactamente o contrário do que se fez nos restantes países europeus: adiaram os cortes na despesa e fizeram "tudo para encobrir a verdadeira situação das contas públicas portuguesas". Este economista fez, de resto, questão de não isentar Teixeira dos Santos de responsabilidades. Afinal foi ele que reviu três vezes o défice de 2009, como é ele que já vai no terceiro pacote de medidas para 2010. É ele que tem desorçamentado, é ele que tem inventado contabilidade criativa, é ele que agora recorre ao fundo de pensões da PT (para pagar os submarinos, disse, como se quando fez o Orçamento não tivesse a obrigação de saber que ia ter de pagar os submarinos!) e é ele que ainda esta semana foi desautorizado pelas empresas públicas que não cumprem o tecto do endividamento. Como é ele que anuncia a suspensão dos investimentos até ao fim do ano, mas não a suspensão do TGV também em 2011.(...)

E é assim, porque este Governo nunca seria capaz de evitar a tentação de subir os impostos (impostos mais altos criam receitas a que o Estado se habitua, mesmo quando a aflição passa...), porque é incapaz de pensar em modelos alternativos de organização da máquina administrativa e de Estado social. É por isso que é uma falácia afirmar que não há alternativa à subida do IVA, por exemplo. Marvão Pereira, no texto que já citámos, mostra que existe: cortando apenas 10 por cento na aquisição de bens e serviços do Estado e nas despesas de 50 institutos não relacionados com a saúde e com a educação obter-se-iam mais do que os 900 milhões de receitas extra que trará o aumento do IVA."


"(...)O mal, evidentemente, não está em rapar o fundo ao tacho, um exercício agora necessário. O mal está em que nas contorções financeiras do Governo não se consegue perceber vestígio de um pensamento político ou de uma vontade de reforma. Perante a ameaça externa, Sócrates lá se resolveu a limitar um pouco o regabofe estabelecido. Mas não trouxe uma ideia original ou aproveitável sobre o desenvolvimento da economia, os limites do Estado providência, a administração central ou a administração local. Este "PEC III" trata os sintomas de uma doença que não se deu ao trabalho, ou simplesmente não foi capaz, de identificar.(...)

Entretanto, o país chegou ao caos. Existem 700.000 funcionários, que (fora a saúde e o ensino) ainda ninguém descobriu ao certo em que se ocupam; os srs. ministros têm quatro secretárias e quatro motoristas: e no meio do delírio vigente o Governo declara como objectivo nacional "reduzir as despesas com a frota automóvel do Estado" em 20 por cento. Se estas coisas acontecem, e acontecem, na farsa de mau gosto em que Portugal se tornou, não se deve esperar qualquer espécie de regeneração ou de alívio. A inutilidade do sacrifício que Sócrates nos pediu é manifesta. "


"(...)Vale a pena fazer o filme da crise financeira e orçamental. No início de 2008 o Governo entrou em campanha eleitoral: despediu Correia de Campos, desceu o IVA para 20%, pôs na gaveta umas quantas reformas. Com a crise internacional a agudizar-se em finais de 2008 e com as eleições à porta, foi o descontrolo absoluto das contas públicas. Mas ganha as eleições, embora com maioria relativa. Chegamos a Janeiro passado com um défice incompreensível de 9,3% do Produto para 2009. Porque poderíamos vir a ter eleições antecipadas, o Governo cede aos interesses mais variados, volta atrás com muita coisa, nomeadamente na Educação. O orçamento para 2010 é pouco ambicioso e os mercados penalizam o país. O PEC, que se viria a revelar ser apenas o primeiro, é apenas pouco melhor que o orçamento. Os mercados voltam a penalizar o país e o Governo entra na clandestinidade, ninguém está lá para defender o rigor nas contas públicas.

As agências especializadas, em Abril, baixam drasticamente o rating da República e os investidores desfazem-se da dívida pública nacional com perdas (ou seja, os juros a longo prazo batem recordes). O Governo sabe (espero) que vai demorar anos a reverter a situação e com custos brutais para a população. O silêncio do Governo é total.

No entanto, nesse período de silêncio e de óbvio descalabro, não deixa de assinar contratos para mais uma auto-estrada que custará quase um por cento do PIB, nem se esquecerá de assinar o contrato do TGV Poceirão-Caia. Infelizmente tudo isto depois da quebra dramática no rating, o que acentua o sentimento de que o Governo está "em estado de negação" (a expressão não é minha).

No dia seguinte ao contrato do TGV, é anunciado mais um pacote (o chamado indevidamente PEC-2) pela mão da sr.ª Merkel, mais tarde detalhado e acordado com o PSD. Os mercados parecem melhorar ligeiramente, mas por pouco tempo. Estamos em meados de Maio.

E em pleno Verão as coisas começam mais uma vez a piorar: a despesa pública não parece estar controlada; os bancos, em consequência da baixa do rating nacional, têm dificuldades de financiamento; o crédito para as empresas escasseia e é caro; a dívida pública emitida tem custos elevadíssimos; os spreads batem recordes. O Governo passa, mais uma vez, para a clandestinidade. Num magnífico artigo, José Manuel Fernandes descreveu como o primeiro-ministro apareceu todos os dias nas notícias para inaugurar o Liceu Pedro Nunes ou falar da banda larga, mas manteve um silêncio comprometedor sobre o descalabro que nos batia e bate à porta.

O mundo deixava de acreditar em nós e no nosso Governo, voltava o espectro do FMI com o silêncio absoluto das autoridades sobre aspectos orçamentais. O PSD recusa partilhar responsabilidades ou colaborar com o Governo (ou vice-versa). A possibilidade de uma crise político-governamental, a adicionar à outra, parecia clara. E não foi por falta de alertas, durante todo este período de mais de dois anos houve muitas mensagens públicas de desespero: reavaliar as grandes obras públicas; actuar quanto antes; quanto mais tarde, maiores custos terá. Esse momento tardou, mas chegou.

Chegou ontem e brutalmente, como todos sabemos, o chamado PEC-3. Haveria alternativas? Alternativas havia há dois anos, há um ano, há seis meses, mas cada vez mais duras. O tempo passava e a gangrena alastrava. Espanha, de facto España es diferente, fez o trabalho atempadamente e os mercados deixaram de a apoquentar: subiu muito menos os impostos, os cortes na despesa foram menos dolorosos e os resultados são já visíveis este ano. (...)

O problema é que com três PEC"s num ano, sempre anunciados como sendo o último, o definitivo, o que tudo resolveria, fica em todos a dúvida: será? É que, penso, este resolve a questão para 2011 e tapa o buraco de 2010 com o fundo de pensões da PT (espero que o dito fundo seja transferido devidamente capitalizado, veremos). Mas para 2012 a situação poderá voltar a colocar-se, em particular se o crescimento for muito abalado com mais este PEC-3. E pouco depois aparecem as facturas das PPP"s, concessões, etc. Infelizmente o sarilho orçamental veio para ficar. Os culpados são fáceis de reconhecer: quem governou o país, digamos, desde 2001, com graus de responsabilidade crescentes até ao presente. O ponto de não retorno foi em Abril com a queda do rating, pelo menos para muitos anos. Nessa altura confessava que daqui para a frente só nos restava rezar. Um jornal alemão fez deste meu desabafo primeira página: vã glória. O leite estava definitivamente derramado e voltar a pô-lo no copo não é, nem será, tarefa fácil.(...)"


"Quem recentemente acertou na mouche ao falar sobre a crise financeira e económica que o país atravessa foi Ernâni Lopes, o ex-ministro das Finanças e do Plano do Governo do Bloco Central, dirigido por Mário Soares, que, em 1983, recebeu o FMI: "Não tem a ver com taxa de juro, oferta de moeda nem finanças públicas. Tem a ver com qualquer coisa mais importante. Os problemas resolvem-se com estudo e trabalho e não com facilitismo e aldrabice". (...)

Poderia ser de outro modo? Dificilmente poderia. Uma sociedade não pode ser melhor do que a escola que a molda. Facilitismo, o termo que tão bem se adequa à política em geral, é também o certo para designar a política escolar, também ela de Bloco Central. Mostra-o, por exemplo, o caso do aluno que entrou na Universidade, com 20 valores, pela porta do cavalo das Novas Oportunidades. E aldrabice é a palavra justa para descrever uma situação em que se passam diplomas a certificar sabedoria e competências a quem é manifestamente ignorante e incapaz. Uma aldrabice pegada, como cada vez é mais claro.(...)"

domingo, 26 de setembro de 2010

"Três meias verdades", Ricardo Reis (25.09.2010)


Extractos de um texto que vale a pena ler:

"A primeira diz que a crise começou com os problemas nos mercados financeiros internacionais em 2008. É verdade que nos últimos dois anos o desemprego tem subido de forma imparável e o aumento nas taxas de juro tem sido asfixiante para toda a política económica. Mas a crise portuguesa já vem de trás. Entre 2000 e 2009, o PIBper capita cresceu apenas 1%. É toda uma década perdida. Entre 1960 e 2000, o crescimento médio num intervalo de 9 anos foi 41%; o pior período tinha sido 1974-83, em que crescemos só 14%, mas construímos uma democracia. Em breve, este período da história portuguesa vai começar a ser referido como a grande depressão do início do século xxi."

"A depressão agravou-se nos últimos dois anos porque Portugal deve ao exterior cerca de 2,3 vezes aquilo que produzimos num ano inteiro. Logo, quando os fundos para o crédito secaram, e as taxas de juro subiram, o endividado Portugal sofreu um enorme choque."

"Quando Portugal deixou de crescer, os portugueses pediram emprestado para sustentar o seu nível de vida na esperança de que a estagnação fosse temporária."

"A terceira meia verdade diz que basta pôr as contas públicas em ordem para resolver o problema. Provavelmente, cortar a despesa pública, e com isso reduzir os juros que pagamos no exterior, levaria ao crescimento económico."

quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Estatizar as Scut", Pedro Braz Teixeira (14.07.2010)


Neste artigo o autor propõe estatizar as SCUT, pagando já tudo o que se deve através da emissão de dívida pública. Assim, troca-se uma taxa de juro elevada (taxa de rentabilidade das concessionárias) por uma mais baixa (dívida), o que seria uma boa ideia. Além disso, como as concessionárias estão com problemas de liquidez, talvez se conseguissem bons negócios.

Há, no entanto, alguns problemas. Em primeiro lugar, o Estado costuma ser muito mau a negociar, como aliás se pode comprovar pelos contratos de concessão de auto-estradas. Qualquer risco, mínimo que seja, é o Estado que paga. Depois, a nossa dívida pública, já elevada, subiria ainda mais, o que poderia motivar maiores preocupações dos mercados financeiros internacionais, onde nos financiamos, levando a um aumento dos custos para obter crédito no futuro.

De qualquer forma, poderia ser uma boa solução, se feita de forma bem controlada e totalmente transparente, para evitar conluios entre as concessionárias e não assustar os mercados.

terça-feira, 13 de julho de 2010

"Fiscal Fibs and Follies", Barry Eichengreen (13.07.2010)


O debate sobre a consolidação orçamental e o estado da economia tem estado dividido em dois campos. Por um lado, os que defendem que se deve reduzir os défices dos Estados rapidamente, de forma a inspirar confiança nos mercados. Por outro, os que defendem que os Governos ainda devem continuar com políticas expansionistas, gerando mais dívida pública para instigar o crescimento económico.

Para o autor, professor em Berkeley, a resposta depende do país. Para Portugal, Espanha e Grécia, privilegie-se o controlo da despesa:

"Here, the plausible passengers are southern European firms. They understand that their countries’ fiscal positions are unsustainable. They know that debt default would be disruptive. Seeing the economy hurtling toward a brick wall, they are holding their collective breath, while evidence that the government is serious about stepping on the brake can induce them to exhale. In this case, fiscal consolidation is likely to affect their investment spending positively.

This does not mean that Greece, Portugal, and Spain will expand as robustly as Denmark, Ireland, and Finland did in the 1980’s and 1990’s. They can’t lower the exchange rate to aid exports. But they can reduce interest rates by eliminating the perceived risk of sovereign default. Banks will be able to borrow from one another for less, and thus able to lend to firms for less. This suggests that investment may respond better than the pessimists fear."

Para os EUA, China, Alemanha e Japão, continuem os incentivos:

"But what might work in southern Europe has no chance of working elsewhere. In other G-20 economies, including the United States, Germany, China, and Japan, the car is still cruising down an open road. Fiscal velocity may be considerable – that is, deficits may be large – but there is no sign of a brick wall ahead. Interest rates on government debt are still low. If the passengers were growing restive, they would rise. At this point, they have not.

In these countries, there is therefore no reason to think that fiscal consolidation would have a strong positive effect on confidence. That possibility could arise sometime in the future, when the proverbial brick wall comes into view. But it is not on the horizon yet, which means that there would be no positive private-spending response to buffer public-spending cuts. As a result, budget cuts would be strongly contractionary."

quarta-feira, 23 de junho de 2010

"A Way to Rescue Greece", Michael J. Strauss (21.06.2010)


O autor faz uma proposta: para ajudar a Grécia a resolver a sua crise económica, que tal pensar-se em arrendar (lease) uma ou duas das suas ilhas a um outro país? Parece estranho, mas na realidade já foi feito algumas vezes: Hong Kong, Canal do Panamá, Guantánamo. E até a própria Grécia já o fez, no final do século XIX. Depois de entrar em bancarrota, este país chegou a acordo com os países credores e estes últimos ficaram com os direitos de recolher impostos alfandegários futuros em alguns portos para ajudar a pagar a dívida.

Esperemos não chegar a ter de arrendar uma ilha dos Açores no futuro... :)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

"The pain in Spain", Charlemagne (3.6.2010)


Em Espanha, como em Portugal, os funcionários públicos não podem, basicamente, ser despedidos. O texto dá um exemplo ilustrativo do ridículo a que pode chegar a situação: o governo de Madrid resolveu reduzir a sua frota automóvel, reduzindo em 48 o seu número (eram 125), e trocando as limusinas por modelos mais baratos. Mas, paradoxalmente, não pôde despedir os motoristas. Mas é pior: não os pôde também mandar para outra função (só poderia com o seu consentimento). É que os funcionários públicos não podem ser obrigados a mudar de posto, nem de serviço. Mas há mais problemas. A taxa de absentismo é elevada (18%) mas os funcionários continuam a poder faltar ao trabalho, 3 dias seguidos, sem atestado médico (aqui em Inglaterra são 7 dias, mas as taxas de absentismo são mais baixas: questões de cultura). Depois, se se quiser recrutar um profissional de qualidade excepcional (por exemplo, um cirurgião reputado), não se lhe pode oferecer um salário melhor, pois todos vencem o mesmo. E se o Estado decidir privatizar alguma empresa estatal, fica com um enorme ónus: se os compradores decidirem despedir alguns trabalhadores para fazer emagrecer a empresa, o Estado tem de os contratar de novo, obrigatoriamente.

Portugal padece de muitas destas maleitas, mas não fazia ideia que o mercado laboral em Espanha era ainda mais rígido do que no nosso País. Não admira por isso que a taxa de desemprego por lá já ande nos 20% (entre os jovens, 40%). Lá, como cá, o mercado laboral protege os que estão no sistema, em detrimento dos restantes. É, por isso, um entrave para a economia.

sábado, 5 de junho de 2010

"The grasshoppers and the ants – a modern fable", Martin Wolf (25.05.2010)


Esta fábula é provavelmente a melhor descrição do estado da economia mundial que já li. E tem continuação...


quarta-feira, 2 de junho de 2010

"A balanced budget by 2016", Álvaro Santos Pereira (24.5.2010)


Um texto interessante a defender o objectivo de défice zero até 2016. Mas o que mais "gostei" foi a imagem seguinte, que mostra que, desde a revolução dos cravos, nunca conseguimos ter défices abaixo dos 3%, e só andámos próximo deste valor quando a isso fomos obrigados por circunstâncias externas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Regresso ao abismo", Nouriel Roubini (31.05.2010)


Resumo de uma crise financeira:

1) Excessivo risco, excessiva alavancagem, excessiva dívida (de bancos, de empresas, de famílias). Isto leva a:

2) Estímulos orçamentais, socialização das perdas do sector privado. Isto leva a:

3) Défice orçamental, dívida pública. Isto leva a:

4) Aumento de impostos, redução da despesa. Se não for suficiente, isto leva a:

5) a) Se se puder, desvaloriza-se a moeda: riscos de inflação. Ou, b) se não se puder emitir moeda: incumprimento do pagamento da dívida.

Portugal está no ponto 4, mas pode em breve saltar para o 5 (no nosso caso, 5b). Por agora, a Alemanha e outros países disciplinados resgatam-nos. Mas o que acontecerá quando estes se cansarem? Como diz o autor do texto, "o mecanismo da dívida global está a assemelhar-se cada vez mais a um esquema piramidal de Ponzi". Não poderia ser mais esclarecedor. Nem mais assustador.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

"O que esperar da nossa gigantesca crise bancária", Paul Krugman & Robin Wells (11.05.2010)


Quanto mais as coisas mudam no mundo financeiro, mais elas ficam na mesma. Esta é a conclusão do livro "This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly", o qual serve de base a este artigo:

"A crise da dívida grega em 2010 tem muitas semelhanças com a crise da dívida mexicana de 1827; a inflação no Zimbabwe é apenas o mais recente episódio de uma história de desvalorização de moeda que vai até às cidades-Estado da antiga Grécia; e, tão ou mais importante, a crise imobiliária dos Estados Unidos de 2008 seguiu o argumento de inúmeras crises bancárias do passado, cujo rasto se pode traçar, pelo menos, até à Escócia do século XVIII."

A mensagem principal do livro (que ainda não li, mas está na minha "wish list" da Amazon ;) é que demasiada dívida é sempre perigosa. Seja do Estado, seja dos privados. Seja criada pedindo aos cidadãos, seja pedindo ao estrangeiro. O problema, no entanto, é que as pessoas, as empresas e os governos tendem a esquecer isto, especialmente em períodos de acalmia financeira. Acham que se podem ir safando com défices maiores e maiores. Os governantes deviam conhecer melhor a História económica do mundo para tentar evitar cometer os mesmos erros.

"Qual a melhor forma de lidar com as crises de dívida?", questionam os autores. Resposta: "Não as ter".

domingo, 9 de maio de 2010

"O problema português está nas fundações, não no telhado", Aurora Teixeira (09.05.2010)


O nosso principal problema económico foi termos deixado de nos dedicar aos bens transaccionáveis (indústria em geral), como bem lembrou há pouco tempo o nosso Presidente (em períodos de crise económica, dá jeito ter um PR especialista nestes assuntos). Assim, essa parte da nossa economia definhou, não conseguindo competir a nível internacional. Apostou-se antes na "construção, restaurantes, serviços pessoais e de lazer". A solução proposta pela autora é teoricamente simples. Temos de tratar das "fundações" da economia: capital humano e I&D. E elas provam-no neste artigo: "Human capital, R&D, trade, and long-run productivity. Testing the technological absorption hypothesis for the Portuguese economy, 1960–2001".

quarta-feira, 5 de maio de 2010

"The importance of not being Greece", The Economist (22.04.2010)


Segundo a revista:

Portugal, pontos positivos: 1) contas públicas credíveis, 2) povo bem comportado (quando precisamos de apertar o cinto, fazemo-lo, sem muito alarido, ao contrário dos gregos), 3) algumas reformas importantes feitas entretanto (em especial a das pensões).

Portugal, pontos negativos: 1) reduzido crescimento económico (o mais baixo da zona euro desde que entrámos na moeda única) devido à baixa competitividade; 2) perdemos quota de mercado nas exportações (em particular para os países do Leste Europeu); 3) custos de trabalho a aumentar mais rápido que a produtividade; 4) deixámos de ser forradores, e agora pedimos emprestado ao estrangeiro; 5) tribunais ineficientes; 6) escolas de baixa qualidade; 7) burocracia; 8) parte da economia protegida da concorrência (pelo Estado); 9) leis laborais rígidas.

Nada de novo para nós. Mas agora são os estrangeiros a chamar-nos a atenção.

sábado, 13 de março de 2010

"Europe's engine", The Economist Leaders (11.03.2010)

Como conciliar os alemães poupados e exportadores, com os PIGS (Portugal, Irlanda/Itália, Grécia e Espanha), gastadores e mandriões? Não é fácil, mas para manter a União não será só necessário que estes últimos se comecem a comportar melhor (embora seja fundamental). Além de nós nos comportarmos mais como eles, é provavelmente também necessário que os alemães comecem a ser um pouquito como nós: aumentando o consumo e o investimento interno.

Os países com excedentes orçamentais tendem a considerar-se virtuosos, rotulando os outros de pródigos (o que é em grande parte verdade). Mas se quisermos mesmo ter aqui uns Estados Unidos da Europa, é importante reduzir os desequilíbrios entre países. E todos têm de mudar um pouco. Curiosamente.

"Os riscos da redução do défice", Joseph Stiglitz (12.03.2010)


O prémio Nobel da economia defende que as actividades especulativas devem ser taxadas, para que os bancos se possam focalizar no seu papel chave: a concessão de crédito. É uma ideia interessante. Considero crucial que a banca se focalize no que é essencial. Além disso, o autor defende que, embora sendo importante ter-se em atenção a sustentabilidade financeira e económica dos Estados, é necessário não cair no que ele chama o "fetichismo do défice". Ainda se lembram daquele "há vida para além do défice"?

quarta-feira, 3 de março de 2010

"A economia é fixe", João César das Neves (01.03.2010)

in DN

Portugal tem problemas políticos e financeiros, mas dizer que tem um problema económico é exagero, segundo o autor. Em primeiro lugar, o nível de vida é elevado (o dobro do de 1974). Depois, as exportações já representavam 34% do PIB em 2008 (25% em 1980). Finalmente, apesar da produtividade ainda ser baixa, cresceu praticamente ao ritmo da Europa entre 1996 e 2007 (e três vezes mais do que Espanha). Ou seja, segundo César das Neves, "por baixo da crise, a estrutura é sólida, produtiva e exportadora. Podia ser melhor, mas não é má".

Um artigo interessante, em especial por ser contracorrente.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"Foreigners - they didn’t steal our jobs: they created them", Evan Davis (24.02.2010)


Os imigrantes não roubam os empregos aos nacionais. Pelo contrário. O que acontece é que os imigrantes agarram os empregos que os nacionais não querem, por uma simples questão económica: os autóctones não estão dispostos a fazer certos trabalhos pelos salários baixos que os estrangeiros auferem. Por isso, se os imigrantes não agarrassem esses empregos, os nacionais também não o fariam, e o desemprego manter-se-ia na mesma, apesar de a economia sofrer com a falta de mão-de-obra (há vários estudos que chegam a estas conclusões).

Além disso, ao fazer o trabalho que os outros não querem, os imigrantes criam, na realidade, postos de trabalho para os nativos. Como há mais mão-de-obra na base da pirâmide, produz-se mais, e consequentemente há maiores necessidades de gestão, de planeamento. Ou seja, criam-se empregos acima da base da pirâmide.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"Britain should not fear foreign ownership", Wendy Carlin and Colin Mayer (21.02.2010)


Haverá problema em que as "nossas" empresas fiquem em mãos estrangeiras? Num mundo globalizado, a produção vai para fora, para onde se faz mais barato; os mercados são globais, pois queremos vender os produtos onde eles tenham mais procura e se vendam mais caro; os accionistas são de todas as nacionalidades (nas grandes multinacionais, é raro haver uma maioria pertencente a um só país); e até as administrações já são raramente de uma só nacionalidade. Assim sendo, fará sentido, num mundo globalizado, ter medo do controlo estrangeiro? Não será mais preocupante a debandada de capital estrangeiro do país?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

"Privacidade e sigilos", Luis Campos e Cunha (19.02.2010)

in Público

Em defesa do sigilo fiscal, mas em nome da privacidade.